quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Countdown to Oblivion ...1

O marido está em casa. Ela não chega. A mulher não chega.
Os miúdos grunhiam, ranhosos, nas suas brincadeiras. Ninguém perguntava ao marido, como tinha sido o seu dia. Depois lembrou-se que ela nunca mais chegaria. Esfregou os olhos. Limpou os olhos. Soletrou, “Macdonald’s” e os miúdos correram e pularam, contentes.

Fast Food Fast Fuck Fast Forget Fast Forward.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Countdown to Oblivion ...2...

Eles avançam pelo corredor verde.
Os outros caminham pelos passeios sujos.
Abrem-se portas, cruzam-se enfermeiras, estacionam-se as macas.
Os prédios têm as suas entradas fechadas. As luzes estão fundidas. Os carros deixaram de apitar.
Eles avançam pelo corredor verde e a enfermeira pede-lhes para esperar.
Os outros caminham de máquina em punho, tiram fotografias às fachadas poluídas.
A enfermeira chama o médico.
Os sorrisos guardados na máquina.
Eles choram, abraçados, com a notícia do médico.
Os outros abraçam-se, simulando poses, fotografando-se.
Ele está numa cama, no hospital. O quarto limpo e cuidado. O soro ligado por tubos. A ventilação, inútil, trabalhando suave. As drogas para as dores, disponíveis, intocadas. Eles choram, querem vê-lo. O médico não os deixa olhar.
Ela está no meio do passeio. Porca e imunda, vertendo líquido pelas feridas, molhada pela chuva. A silhueta, contorcida pelas dores, mordida pelos ratos. Os outros passam por ela. Mas não olham.
Morte é morte.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Countdown to Oblivion 3...

O homem da guitarra pensa que está a tocar uma balada, quente, sórdida. Mas já não se ouve. Só lhe interessa o final. Sair do túnel. Avançar até ao arbusto. Mijar.
Mas não consegue. Espera um pouco. Tenta de novo. Esforça-se. Tem vontade. Mas não consegue. Algo no seu corpo mudou. Ele não consegue.

O homem das pinturas está em frente ao espelho. Os desenhos mudavam sempre. Desapareciam e ficava o corpo, imutável. Mas agora o corpo tinha uma estranha mancha. Ele agarrou no pincel. Sobre a pele, uma mancha escura. Fez movimentos com o pincel. Sobre o espelho, a tinta, imutável.

A embalagem no microondas. Ela com uma dor súbita e estranha. Potência regulada para 1000W. Ele a levá-la para o hospital com a dor invisível. O manípulo do temporizador, rodado para 1 minuto. No hospital os toques, apalpões, as tentativas em vão. O dedo, pressionando o botão START.
Primeira radiografia: inconclusiva.
Segunda radiografia: incompetência.
Terceira radiografia: incerteza.
Quarta radiografia: nova dúvida.
Quinta radiografia: estupidez.
Sexta radiografia: ingenuidade.
Sétima radiografia: porque sim.
A radiação sobre a carne. A radiação sobre o corpo.

Outra mulher não sabia o que fazer. O corpo é o último refúgio. Ela vê como o sangue lhe escorre pelas pernas.
A casa merecia ser suja.

Algo está errado. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Os Túneis III

A presidente aderiu ao facebook. Era a voz de todos. Podia agora aceitar todos como amigos. Ver que fotografias tinham. Que comentários faziam. Que causas apoiavam.
Queria conhecer as vozes que a compunham.

Lembrou-se do seu discurso que não era seu. Tinha a aplicação do facebook no telemóvel. Clicou “upload”. Carregou o discurso para a sua página. Depois, guardou o telemóvel, no bolso de trás das calças. Os assessores chamavam-na. Ela pediu um momento. Tinha de ir à casa de banho. Não o disse assim. Foi vaga. “Esperem só um pouco, por favor”. Entrou na casa de banho. Dirigiu-se a uma das cabines. Fechou a porta. Desapertou as calças. Puxou-as para baixo.
Ouviu um barulho, na água da retrete.
A presidente, de calças e cuecas para baixo, via o seu telemóvel afundar-se, com o discurso, os amigos, os likes e os comentários e os likes nos comentários. A verdade, era uma mentira afundando-se na merda da água.

Sim, a poesia tem os seus momentos.