quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Discurso III

A presidente precisou de um momento só. Mas sabia as opções que tomara.
A sua vida era as pessoas.
A sua solidão era um homem: O seu marido.
Tentou explicar-lhe que era uma mulher. Que o amava. Mas ele não acreditou. A sua verdade deixara de ser credível.
A presidente ligou para o seu fantasma. Encomendou-lhe um discurso. Decorou-o. Tornou-o seu. Moldou nele a sua própria humanidade.
Salvou o seu casamento.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Cidade Obediente VII

Vagueava e era infeliz. Sofria como nunca quisera sofrer. Perdia forças. O tempo deixara de se dividir. Dormitava permanentemente.

Quando deixou de conseguir andar, pensou na vida.
Todos fazem os mesmos caminhos. Todos vão aos mesmos sítios. Todos regressam da mesma maneira Abandonaram-se os interstícios. Deixou-se de vaguear.

O objectivo não era a verdadeira doença.
Mas tinha o odor anti-séptico da imunidade.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* IV

Entrou dentro de casa. Pousou a sua guitarra. Jantou calado. A sua guitarra no canto. Viu televisão sem som. A guitarra calada. Deitou-se.
Ouvia os seus vizinhos.
Conversavam através das paredes finas.
Confessavam coisas seguras, a dois, protegidos pela casa.
Ele ouvia tudo.
Mas ninguém o ouviria.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os Túneis II

Hoje a mulher não se quis carregada. Entrou em casa. Perguntou ao marido, “como foi o teu dia?”.
Gritou pelos miúdos. Nada se ouviu.
Soletrou, “MacDonald’s”.
O marido respondeu. Os miúdos correram. “O dia foi bom”. Pularam contentes. E o marido mandou, “anda mulher”.
Nessa noite jantaram em família. Alimentando-se convenientemente. Os miúdos aos gritos com a merda dos brinquedos do Happy Meal. O marido, ofegante, procurando foder as artérias, mergulhando toda a batata no molho amarelo.
Ela sorriu. Abriu bem a boca e rasgou, de uma só vez, dois pedaços de hambúrguer, alface, queijo, cebola, pickles, molho “especial” e o pão com sésamo. Mastigando tudo até se tornar numa pasta compacta.
A poesia tem os seus momentos.