terça-feira, 20 de dezembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* IV

Entrou dentro de casa. Pousou a sua guitarra. Jantou calado. A sua guitarra no canto. Viu televisão sem som. A guitarra calada. Deitou-se.
Ouvia os seus vizinhos.
Conversavam através das paredes finas.
Confessavam coisas seguras, a dois, protegidos pela casa.
Ele ouvia tudo.
Mas ninguém o ouviria.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os Túneis II

Hoje a mulher não se quis carregada. Entrou em casa. Perguntou ao marido, “como foi o teu dia?”.
Gritou pelos miúdos. Nada se ouviu.
Soletrou, “MacDonald’s”.
O marido respondeu. Os miúdos correram. “O dia foi bom”. Pularam contentes. E o marido mandou, “anda mulher”.
Nessa noite jantaram em família. Alimentando-se convenientemente. Os miúdos aos gritos com a merda dos brinquedos do Happy Meal. O marido, ofegante, procurando foder as artérias, mergulhando toda a batata no molho amarelo.
Ela sorriu. Abriu bem a boca e rasgou, de uma só vez, dois pedaços de hambúrguer, alface, queijo, cebola, pickles, molho “especial” e o pão com sésamo. Mastigando tudo até se tornar numa pasta compacta.
A poesia tem os seus momentos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Apagaram-se as Linhas do Sofrimento

Na rua cruzam-se duas mulheres.
Uma veste-se do trabalho.
Outra veste-se desportiva.
Uma carrega as compras para casa.
A outra corre sem peso.
Uma está cansada.
A outra procura o cansaço.
Uma prepara o jantar.
A outra abre o frigorífico.

Algo se perdeu.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Cidade Obediente VI

Ela saía para andar e já nem sabia almoçar.
Esquecia-se de voltar para casa.
Lembrava-se que já não tinha casa.
De noite era violada por outro, igual a ela.
Não gostava.
Dormia sozinha e era miserável, ali, no meio da rua.