sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Apagaram-se as Linhas do Sofrimento

Na rua cruzam-se duas mulheres.
Uma veste-se do trabalho.
Outra veste-se desportiva.
Uma carrega as compras para casa.
A outra corre sem peso.
Uma está cansada.
A outra procura o cansaço.
Uma prepara o jantar.
A outra abre o frigorífico.

Algo se perdeu.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Cidade Obediente VI

Ela saía para andar e já nem sabia almoçar.
Esquecia-se de voltar para casa.
Lembrava-se que já não tinha casa.
De noite era violada por outro, igual a ela.
Não gostava.
Dormia sozinha e era miserável, ali, no meio da rua.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* III

Ele chega ao seu prédio e este está sujo. Na fachada, a poeira e a poluição cobrem os graffitis e os tags manhosos.
Ele entra, sobe no elevador, vê escrito, dentro daquele compartimento, todo o tipo de nomes, riscados sobre superfícies metálicas, para perdurarem no tempo. Vê pilas e bonecos ordinários, corações ligados a símbolos matemáticos.
Sai no seu andar.
Roda a chave, na porta de casa.
Abandona o pincel e o balde vazio que trazia. Deixa-os do lado de fora. Pensa na maldita da gorda.
Entra em casa. Tudo está branco. As paredes, o chão. O hall não tem nada. A sala também não. Dirige-se à casa de banho. Despe-se e introduz tudo no cesto da roupa. O espelho mostra-o nu.
Toma banho. Quando sai, o espelho está embaciado. Ele desenha sobre o espelho.
No dia seguinte, repete tudo. Mas, antes de tomar banho, repara que o espelho perdeu os seus desenhos. De novo, só sobra ele, nu.


* Shadrach Woods

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cidade Obediente V

Ela variou nos percursos que fazia, a pé.
Descobriu novos caminhos pela cidade.
Descobriu lugares que nem sequer tinham pessoas.
Esqueceu-se de ir trabalhar.
Esqueceu-se que havia uma hora de almoço.
Voltou para casa.
O marido trocara-a, por outra.
Ela não se deitava.
Ia andar de noite.
Esquecia-se que era de manhã.