Ele chega ao seu prédio e este está sujo. Na fachada, a poeira e a poluição cobrem os graffitis e os tags manhosos.
Ele entra, sobe no elevador, vê escrito, dentro daquele compartimento, todo o tipo de nomes, riscados sobre superfícies metálicas, para perdurarem no tempo. Vê pilas e bonecos ordinários, corações ligados a símbolos matemáticos.
Sai no seu andar.
Roda a chave, na porta de casa.
Abandona o pincel e o balde vazio que trazia. Deixa-os do lado de fora. Pensa na maldita da gorda.
Entra em casa. Tudo está branco. As paredes, o chão. O hall não tem nada. A sala também não. Dirige-se à casa de banho. Despe-se e introduz tudo no cesto da roupa. O espelho mostra-o nu.
Toma banho. Quando sai, o espelho está embaciado. Ele desenha sobre o espelho.
No dia seguinte, repete tudo. Mas, antes de tomar banho, repara que o espelho perdeu os seus desenhos. De novo, só sobra ele, nu.
* Shadrach Woods
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Cidade Obediente V
Ela variou nos percursos que fazia, a pé.
Descobriu novos caminhos pela cidade.
Descobriu lugares que nem sequer tinham pessoas.
Esqueceu-se de ir trabalhar.
Esqueceu-se que havia uma hora de almoço.
Voltou para casa.
O marido trocara-a, por outra.
Ela não se deitava.
Ia andar de noite.
Esquecia-se que era de manhã.
Descobriu novos caminhos pela cidade.
Descobriu lugares que nem sequer tinham pessoas.
Esqueceu-se de ir trabalhar.
Esqueceu-se que havia uma hora de almoço.
Voltou para casa.
O marido trocara-a, por outra.
Ela não se deitava.
Ia andar de noite.
Esquecia-se que era de manhã.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Cidade Estagnada III
Gorda, suada e pobre. Ela regressa a casa. Não chove, mas carrega na mesma o guarda-chuva, porque lhe compete carregar o peso da incógnita.
Chega ao muro que fora amarelo. Vê que muda, outra vez. Vê um homem, a pintar o muro, a escrever no muro. Vê o balde de tinta, o amplo pincel e vê que ele não lhe liga.
A gorda ergue o guarda-chuva e com ele, bate no homem.
O homem, a princípio não reage, surpreso. Depois riposta. Prega-lhe um murro. Ela cai, tropeça no balde, aterra sobre a tinta.
Regressa a casa. Carregada, suja, magoada, pintada, suada, gorda, pobre e miserável. Ridícula, por algo tão simples como existir.
Pergunta ao marido, “como foi o teu dia?”.
Chega ao muro que fora amarelo. Vê que muda, outra vez. Vê um homem, a pintar o muro, a escrever no muro. Vê o balde de tinta, o amplo pincel e vê que ele não lhe liga.
A gorda ergue o guarda-chuva e com ele, bate no homem.
O homem, a princípio não reage, surpreso. Depois riposta. Prega-lhe um murro. Ela cai, tropeça no balde, aterra sobre a tinta.
Regressa a casa. Carregada, suja, magoada, pintada, suada, gorda, pobre e miserável. Ridícula, por algo tão simples como existir.
Pergunta ao marido, “como foi o teu dia?”.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Fantasma no Escritor Fantasma
Ele escrevia apenas palavras. Mas nunca lhes dava uma voz.
Escrevia para os outros o lerem. Alto.
Escrevia para que os textos não fossem seus.
Entregou o discurso à presidente. Foi para casa. Beijou a sua mulher. Jantaram os dois. Luz das velas. Vinho morno. Talvez amor.
De madrugada, na cama, depois de tudo, ele quis conversar. Falou sozinho durante minutos. Ela calou-o.
Às vezes não gostava de o ouvir.
Às vezes não parecia ele.
Escrevia para os outros o lerem. Alto.
Escrevia para que os textos não fossem seus.
Entregou o discurso à presidente. Foi para casa. Beijou a sua mulher. Jantaram os dois. Luz das velas. Vinho morno. Talvez amor.
De madrugada, na cama, depois de tudo, ele quis conversar. Falou sozinho durante minutos. Ela calou-o.
Às vezes não gostava de o ouvir.
Às vezes não parecia ele.
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