quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Social World on the Edge of Oblivion I

We Stand…

As ruas enchem-se com as crianças.

On the Edge of Oblivion.

Já não há brinquedos com que brincar. Os pais desistem num canto. Aos putos resta-lhes agarrar no giz.

We stand on the Edge of Oblivion.

Traçar a recta na rua. Sobre o alcatrão. Desenhar as linhas.

The Edge of Oblivion.

Os velhos vivem os umbrais. As crianças saltam. Esfolam joelhos. O precipício é a rua.

A sirene toca. Os velhos no umbral enchem as suas rugas com marcas da emergência. Os pais desistem encolhidos, sob os sons encarnados. Os miúdos traçam os seus jogos, com o sangue dos joelhos.

We stand on the Edge of Oblivion.
We stand on the Edge of Oblivion.
We stand on the Edge of Oblivion.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* II

São duas caixas. Cada uma contém uma porção individual. Ela poisa-as sobre o balcão da cozinha. Não há panelas, não há tachos nem travessas. A cozinha está limpa. A ilustração nas caixas mostra uma refeição colorida, sobre um prato, fumegante. Não há erro, não há imperfeição.
As imagens alimentam tudo o que não é fome.
De dentro das caixas de cartão, ela retira as embalagens de plástico, compartimentadas. Cada elemento da refeição, separado. A caixa de cartão sugere: misturar depois de pronto. Instrui: 1 minuto no microondas, a 800 W.
Ela assim o faz. Duas embalagens. Dois minutos, um a seguir ao outro.
Ela serve o jantar em dois pratos.
O resultado não se parece nada com a imagem.
Ele aguarda, desapontado. Desejava as panelas sujas, os tachos, as travessas e ela, de avental, a cozer, a fritar, a mexer. A sua mulher, a cozinhar.
Mas comeu, porque a fome é animal.


*Shadrach Woods

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Discurso II

Entregaram o discurso à presidente. É preciso medo, disseram-lhe.
O medo ainda pertence ao lado animal. A obediência tem o seu lado irracional.

A presidente leu o discurso. Deu-lhe uma voz. Decorou-o primeiro. Conferiu-lhe verdade depois.
Recomendaram-lhe falar em inglês.
O povo aplaudiu, sem perceber. Ela falava noutra língua. Era boa presidente. Falava línguas que eles não sabiam. Era-lhes superior.
O resto aplaudiu igualmente. A presidente era um deles. Também sabia falar noutra língua. Era-lhes igual.
A presidente inspirou, antes da última frase do discurso. Ensaiara-a em frente a um espelho. Queria gritar sem o parecer fazer. Ser imponente, sem subir a voz.

“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”

O medo domestica os animais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cidade Obediente III

Ela variou nos transportes para o trabalho, optou por carreiras diferentes.
Saía à hora do almoço para apanhar ar.
Apanhava transportes diferentes para regressar a casa.
Não jantava com o marido.
Ele nem lhe perguntava por amor.
Dormia.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Discurso I

Uma presidente existe para traduzir. Procura saber as vozes do povo. Transmite-as.
Mas a voz da própria presidente tem peso: Vale mais que as outras.
A presidente fala e as vozes do povo consentem.
O povo é incapaz.
A confiança é a sua melhor desculpa.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Cidade Estagnada II


Ela está na paragem. Gorda. Carregada. Suada pelo peso. Suando porque é pobre e merece cheirar mal. Mesmo sem trabalhar. Cheiram todos mal.
O autocarro não vem.
Há greve.
As pessoas na paragem vão-se acumulando. Aconchegam os seus cheiros. Juntinhos.
Começa a chover.
Debaixo da cobertura da paragem tornam-se compactos. Ninguém se quer molhar. Todos têm guarda-chuva. Ninguém o abre. Receiam por medo à diferença.
O dia passa. Eles tiveram sempre na paragem. Fazendo uma ligeira pausa para almoço.
No fim do dia, gorda, carregada e suada, ela regressa a casa.
Prepara o comer e pergunta ao marido, “como foi o teu dia?”.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cidade Obediente II


Ela passou a apanhar o autocarro até ao trabalho.
Lá, estava sentada o dia inteiro.
À tarde apanhava a mesma carreira, para casa.
Jantava com o seu marido.
Estava cansada para amor.
Dormia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Túneis I


Ele toca a sua guitarra. Sempre no mesmo túnel. Cheira a mijo.
O som propaga-se melhor ali. Chega a quem atravessa. O túnel. Une dois pontos. Como se a música fosse a passagem. Eles passam pelo som.
No fim, ele pára. Não toca mais. Sobe as escadas para a superfície. Vê um jardim. Mija-lhe num arbusto.
A poesia tem os seus momentos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cidade Estagnada I


A mulher fazia sempre um pequeno percurso até à paragem. Percorria apressada junto a um muro amarelo. Ela gostava do muro amarelo.
O seu quotidiano era a sua casa.

Pintaram o muro para anunciar uma greve. Deixou de ser amarelo.
Nesse dia a mulher parou junto ao muro. Há algo no poder de parar.
Parar muda. Apenas a insignificância.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Cidade Obediente I


Um dia, parada, ela pensou: o objectivo é a verdadeira doença.

Todos os dias ela ia de carro até ao trabalho, através do mesmo caminho.
No trabalho, estava sentada o dia inteiro.
À tarde saía, ia de carro para casa.
Jantava com o seu marido.
Fazia amor com ele.
Dormia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* I


A mulher entra em casa. Acende as luzes. As superfícies são planas. Estão limpas. Nada fora do lugar. Os objectos e os espaços compostos por ligas metálicas e plásticos brancos. A mulher não vê nada de errado.
Senta-se.
A janela é ampla, sem cortinas. Fria. A cidade é uma imagem estática. Bonita. Tudo está longe.
A mulher não sabe o que fazer.
O seu refúgio é a escultura. A casa merece ser suja.


* Shadrach Woods

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cidade Sem Sentido



Até ao fim do ano, as Cenas irão publicar um conjunto de textos. Estes vão lidar com formas de habitar a cidade.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

27. Charles-Édouard Jeanneret e o Fim


Charles-Édouard nadou.
Mas porque escolhera ele nadar?

Pintava de manhã. Projectava arquitectura de tarde.
Era poético, de manhã.
Prático, de tarde.
No meio, naquela hora em que almoçava, o que era?
Um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e falhava de manhã. Projectava e falhava de tarde.
No meio era um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e às vezes nem sabia se falhava, de manhã.
Projectava e às vezes a arquitectura falhava, de tarde.
No meio continuava a ser um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e pintar é falhar, de manhã.
Projectava e a arquitectura é falhar, de tarde.
No meio, um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e falhava, porque arte é só isso: Falhar. De manhã.
Projectava e falhava, arquitectura é isso: Falhar. De tarde.
No meio. Corpo. Alimentando-se.

Falhar é o único caminho para não falhar.
Só não falha quem morre.
Porque morrer é o fim.
O fim é a perfeição.

Charles-Édouard nadou até não aguentar mais.
Morrer assim, era um mero corpo. A falhar.



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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

26. Star Wars e a destruição


Existe um mundo.
Este mundo é desenvolvido. De forma rápida e extraordinária. Mas, ao mesmo tempo que o mundo se desenvolve, outras coisas se perdem.
Fala-se da poluição, do aquecimento global, do consumo de energia, fala-se dos problemas causados pelo desenvolvimento.
Tudo parece custar uma parte do mundo.

Também o homem, que habita o mundo, se desenvolve e evolui.
Se tudo o que é desenvolvido custa uma parte do mundo, então tudo contém uma pequena parte de destruição. Tudo. Desde os objectos que facilitam mobilidade, aos objectos que salvam vidas. Todos são responsáveis por uma pequena parte da destruição.

Assim, o homem assume isto: destruição.
Esta não é mais uma consequência. Quando já tudo foi construído, resta construir a destruição.
Um objecto de destruição.
Tudo o que fora construído é destruído por esse objecto.

A lógica impõe a questão:
Qual é a função da destruição, quando já nada resta?

Para que a vida torne a ter sentido, os homens tornam a construir.
Fazem-no sobre a única coisa que resta, o objecto que tudo destruiu.
Mas tudo o que é construído parece custar uma parte do objecto. Porque tudo o que é desenvolvido contém uma pequena parte de destruição.
Assim, o objecto padece do seu próprio princípio.

A lógica tornará a impor a mesma questão.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

25. Corto Maltese e a sorte


Uma ferida é uma marca. As marcas são singularidades. A singularidade é a rota do destino.
Corto tinha uma mão incompleta. Não lhe faltavam dedos, porque o lado funcional nem sempre serve para completar. Faltavam-lhe linhas. A mãe era cigana, as linhas eram os seus olhos. Mas na palma dele faltava-lhe a linha da sorte.

Corto agarrou numa faca. Cravou a lâmina na pele e sangrou uma linha.
O destino é uma ferida. Com ele, Corto traçou a sua própria sorte.



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terça-feira, 15 de novembro de 2011

24. Jonathan Franzen e o seu Walden


Consequências da liberdade: O mundo tem demasiadas pessoas.

Para Jonathan, o Walden de Thoreau falava sobre liberdade.
Mas parecia-lhe paradoxal, um lugar tão ermo como esse lago poder estar na génese do excesso. Jonathan quis perceber a essência desta liberdade. É um homem contemporâneo, quis perceber a transformação do seu mundo.
Então procurou desenhar o princípio e desenhou um novo Walden. Mas como não sobra espaço no mundo, teve de o fazer junto a um condomínio de luxo. Nessas casas novas e modernas, as mulheres (porque este é o seu século) abriam as portas para os seus gatos pularem na natureza. Dessa natureza, faziam parte os pássaros.
Os gatos povoaram o lago.
Os pássaros desapareceram.
A liberdade doméstica sobrepusera-se ao lado selvagem.
Repito, Jonathan é um contemporâneo.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

23. John Cage e o silêncio no som


John experimentou compor o silêncio.
Apareceu no palco e toda a imensa plateia bateu palmas. Depois fez-se silêncio.
Abriu a pauta e ficou imóvel.
Silêncio.
Alguém tossiu.
A voz de um homem tossiu e um telemóvel tocou.
A voz rouca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou e uns dedos bateram no braço de uma cadeira.
A voz rouca e seca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave, uns dedos bateram como um piano o braço de uma cadeira e uma mão coçava a sua cabeça.
A negra voz rouca e seca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave uma variação, uns dedos bateram como um piano as teclas do braço de uma cadeira, uma mão coçava a pele da sua cabeça e uma mulher roía as unhas.
A negra voz rouca e seca de um homem tremido tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave uma variação em crescendo, uns dedos bateram como um piano as teclas perras do braço de uma cadeira, uma mão coçava a pele que se desfazia na sua cabeça, uma mulher roía a parte branca das unhas e um tronco roçava-se no tecido da cadeira.
John executou, perante os holofotes, um movimento de sombra negra, o seu toque na pauta foi rouco e seco, tremente, levantou ligeira a folha com a variação, os seus dedos cresciam, o piano mantinha-se imóvel, a impressão digital era pele que se desfazia, o papel roía-lhe a mão e não demorou, até a página branca roçar o seu fim.
Fechada a pauta, John levantou-se e todos bateram palmas.
O silêncio tecera o seu som.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

22. John Cage e o som do silêncio


Encaminharam John pela universidade. O engenheiro que o guiava não poupara elogios. A câmara anecóica de Harvard será, disse-lhe o engenheiro, o lugar mais silencioso onde alguma vez estaria. Entraram os dois. John examinou primeiro com os olhos a estranha textura das paredes.
Surgiu uma voz. Chamavam pelo engenheiro, o homem pediu desculpa, teria de sair por instantes.
John ficou sozinho na câmara. Mas eis que, naquela sala sem som, John ouviu algo. Dois sons que nunca havia escutado mas que, mesmo assim, eram sons.
O engenheiro entrou de novo. John contou-lhe, disse-lhe que, naquela sala onde deveria imperar o silêncio, ele ouvira algo. Dois sons: um alto e um baixo.
Então o outro disse-lhe que o alto era o seu sistema nervoso a trabalhar, o baixo era o seu sangue a circular.
Então John aprendeu que o silêncio teria sempre um som.



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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

21. Apocalypse Now


Um rio é um espaço entre a terra. Mas, para algo que é uma fenda na continuidade, apresenta uma lógica demasiado simples. O rio corre só numa direcção.
Um barco desafiou a lógica do rio. Desafiou a sua direcção: Subiu o rio.

O barco começou no fim do rio. Ali, a corrente transportava corpos pelas águas encarnadas. Pedaços de homens, feridas húmidas a boiar.
O fim é sempre o homem.

O barco continuou a subir o rio. Então encontrou armas, no fundo difuso da água. Formas de matar. O lado mecânico da destruição. O homem constrói para destruir.
Antes do fim do homem há sempre a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, nas suas margens, encontrou garrafas de álcool e restos de cigarros. Aquilo que existe para lá da mera sobrevivência: Os vícios, o rasto civilizado do homem.
O vício é a razão que antecede a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, por todo o lado, encontrou a mutilação dos animais. Restos de fome. Ossos de vaca, de cabra, de galinha, de cão, de rato. A fome é a memória do que outrora foi visível. A sua presença está em tudo o que sobra.
A fome é a guerra animal do homem sem vício.

E o barco subiu até ao início do rio. E lá havia tão pouco que até a água escasseava. O rio perdia-se. Ia desaparecendo.

Então os homens do barco tiveram sede. E mataram-se para beber. Depois tiveram fome. E mataram-se para comer. Quiseram vícios e deram-se ao luxo de matar para os ter. E para não morrer, para sobreviverem ao massacre do barco, mataram-se pelas armas uns dos outros.
No fim do rio há sempre corpos a boiar.



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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

20. Aldo Van Eyck e Herman Haan no país dos Dogon


Van Eyck e Haan precisaram de saber o mundo para lá da Europa.

Van Eyck queria visitar os Dogon porque assim poderia aprender com eles.
Viajou para longe e chegou à terra dos Dogon, onde escolheu uma casa fora da aldeia. Tinha cama. Tinha água. Um alpendre onde jantava nas noites quentes.
Quando Van Eyck visitava a tribo, era um estrangeiro que visitava a tribo.
Quando a sua viagem chegou ao fim, Van Eyck descobriu que aprendera muito sobre os Dogon.

Haan aprendeu muito sobre si e descobriu que a sua viagem nunca teria fim.
Enquanto Haan vivia com a tribo, era um estranho que vivia com a tribo. Não tinha cama. Não tinha água. Nem um alpendre. Só as noites quentes. Escolhera ficar dentro da aldeia porque as viagens interiores são longínquas. Só assim atingiu o seu âmago.
Haan pôde aprender-se com os Dogon. Mas quisera mesmo visitá-los?