São duas caixas. Cada uma contém uma porção individual. Ela poisa-as sobre o balcão da cozinha. Não há panelas, não há tachos nem travessas. A cozinha está limpa. A ilustração nas caixas mostra uma refeição colorida, sobre um prato, fumegante. Não há erro, não há imperfeição.
As imagens alimentam tudo o que não é fome.
De dentro das caixas de cartão, ela retira as embalagens de plástico, compartimentadas. Cada elemento da refeição, separado. A caixa de cartão sugere: misturar depois de pronto. Instrui: 1 minuto no microondas, a 800 W.
Ela assim o faz. Duas embalagens. Dois minutos, um a seguir ao outro.
Ela serve o jantar em dois pratos.
O resultado não se parece nada com a imagem.
Ele aguarda, desapontado.
Desejava as panelas sujas, os tachos, as travessas e ela, de avental, a cozer, a fritar, a mexer. A sua mulher, a cozinhar.
Mas comeu, porque a fome é animal.
*Shadrach Woods
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
O Discurso II
Entregaram o discurso à presidente. É preciso medo, disseram-lhe.
O medo ainda pertence ao lado animal. A obediência tem o seu lado irracional.
A presidente leu o discurso. Deu-lhe uma voz. Decorou-o primeiro. Conferiu-lhe verdade depois.
Recomendaram-lhe falar em inglês.
O povo aplaudiu, sem perceber. Ela falava noutra língua. Era boa presidente. Falava línguas que eles não sabiam. Era-lhes superior.
O resto aplaudiu igualmente. A presidente era um deles. Também sabia falar noutra língua. Era-lhes igual.
A presidente inspirou, antes da última frase do discurso. Ensaiara-a em frente a um espelho. Queria gritar sem o parecer fazer. Ser imponente, sem subir a voz.
“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”
O medo domestica os animais.
O medo ainda pertence ao lado animal. A obediência tem o seu lado irracional.
A presidente leu o discurso. Deu-lhe uma voz. Decorou-o primeiro. Conferiu-lhe verdade depois.
Recomendaram-lhe falar em inglês.
O povo aplaudiu, sem perceber. Ela falava noutra língua. Era boa presidente. Falava línguas que eles não sabiam. Era-lhes superior.
O resto aplaudiu igualmente. A presidente era um deles. Também sabia falar noutra língua. Era-lhes igual.
A presidente inspirou, antes da última frase do discurso. Ensaiara-a em frente a um espelho. Queria gritar sem o parecer fazer. Ser imponente, sem subir a voz.
“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”
“We Stand on the Edge of Oblivion”
O medo domestica os animais.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Cidade Obediente III
Ela variou nos transportes para o trabalho, optou por carreiras diferentes.
Saía à hora do almoço para apanhar ar.
Apanhava transportes diferentes para regressar a casa.
Não jantava com o marido.
Ele nem lhe perguntava por amor.
Dormia.
Saía à hora do almoço para apanhar ar.
Apanhava transportes diferentes para regressar a casa.
Não jantava com o marido.
Ele nem lhe perguntava por amor.
Dormia.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
O Discurso I
Uma presidente existe para traduzir. Procura saber as vozes do povo. Transmite-as.
Mas a voz da própria presidente tem peso: Vale mais que as outras.
A presidente fala e as vozes do povo consentem.
O povo é incapaz.
A confiança é a sua melhor desculpa.
Mas a voz da própria presidente tem peso: Vale mais que as outras.
A presidente fala e as vozes do povo consentem.
O povo é incapaz.
A confiança é a sua melhor desculpa.
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