quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Cidade Estagnada II


Ela está na paragem. Gorda. Carregada. Suada pelo peso. Suando porque é pobre e merece cheirar mal. Mesmo sem trabalhar. Cheiram todos mal.
O autocarro não vem.
Há greve.
As pessoas na paragem vão-se acumulando. Aconchegam os seus cheiros. Juntinhos.
Começa a chover.
Debaixo da cobertura da paragem tornam-se compactos. Ninguém se quer molhar. Todos têm guarda-chuva. Ninguém o abre. Receiam por medo à diferença.
O dia passa. Eles tiveram sempre na paragem. Fazendo uma ligeira pausa para almoço.
No fim do dia, gorda, carregada e suada, ela regressa a casa.
Prepara o comer e pergunta ao marido, “como foi o teu dia?”.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cidade Obediente II


Ela passou a apanhar o autocarro até ao trabalho.
Lá, estava sentada o dia inteiro.
À tarde apanhava a mesma carreira, para casa.
Jantava com o seu marido.
Estava cansada para amor.
Dormia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Túneis I


Ele toca a sua guitarra. Sempre no mesmo túnel. Cheira a mijo.
O som propaga-se melhor ali. Chega a quem atravessa. O túnel. Une dois pontos. Como se a música fosse a passagem. Eles passam pelo som.
No fim, ele pára. Não toca mais. Sobe as escadas para a superfície. Vê um jardim. Mija-lhe num arbusto.
A poesia tem os seus momentos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cidade Estagnada I


A mulher fazia sempre um pequeno percurso até à paragem. Percorria apressada junto a um muro amarelo. Ela gostava do muro amarelo.
O seu quotidiano era a sua casa.

Pintaram o muro para anunciar uma greve. Deixou de ser amarelo.
Nesse dia a mulher parou junto ao muro. Há algo no poder de parar.
Parar muda. Apenas a insignificância.