quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Cidade Obediente I


Um dia, parada, ela pensou: o objectivo é a verdadeira doença.

Todos os dias ela ia de carro até ao trabalho, através do mesmo caminho.
No trabalho, estava sentada o dia inteiro.
À tarde saía, ia de carro para casa.
Jantava com o seu marido.
Fazia amor com ele.
Dormia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

The spectacular is of very little use in the field of human habitat* I


A mulher entra em casa. Acende as luzes. As superfícies são planas. Estão limpas. Nada fora do lugar. Os objectos e os espaços compostos por ligas metálicas e plásticos brancos. A mulher não vê nada de errado.
Senta-se.
A janela é ampla, sem cortinas. Fria. A cidade é uma imagem estática. Bonita. Tudo está longe.
A mulher não sabe o que fazer.
O seu refúgio é a escultura. A casa merece ser suja.


* Shadrach Woods

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cidade Sem Sentido



Até ao fim do ano, as Cenas irão publicar um conjunto de textos. Estes vão lidar com formas de habitar a cidade.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

27. Charles-Édouard Jeanneret e o Fim


Charles-Édouard nadou.
Mas porque escolhera ele nadar?

Pintava de manhã. Projectava arquitectura de tarde.
Era poético, de manhã.
Prático, de tarde.
No meio, naquela hora em que almoçava, o que era?
Um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e falhava de manhã. Projectava e falhava de tarde.
No meio era um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e às vezes nem sabia se falhava, de manhã.
Projectava e às vezes a arquitectura falhava, de tarde.
No meio continuava a ser um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e pintar é falhar, de manhã.
Projectava e a arquitectura é falhar, de tarde.
No meio, um mero corpo. Alimentando-se.

Pintava e falhava, porque arte é só isso: Falhar. De manhã.
Projectava e falhava, arquitectura é isso: Falhar. De tarde.
No meio. Corpo. Alimentando-se.

Falhar é o único caminho para não falhar.
Só não falha quem morre.
Porque morrer é o fim.
O fim é a perfeição.

Charles-Édouard nadou até não aguentar mais.
Morrer assim, era um mero corpo. A falhar.



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