quinta-feira, 17 de novembro de 2011

26. Star Wars e a destruição


Existe um mundo.
Este mundo é desenvolvido. De forma rápida e extraordinária. Mas, ao mesmo tempo que o mundo se desenvolve, outras coisas se perdem.
Fala-se da poluição, do aquecimento global, do consumo de energia, fala-se dos problemas causados pelo desenvolvimento.
Tudo parece custar uma parte do mundo.

Também o homem, que habita o mundo, se desenvolve e evolui.
Se tudo o que é desenvolvido custa uma parte do mundo, então tudo contém uma pequena parte de destruição. Tudo. Desde os objectos que facilitam mobilidade, aos objectos que salvam vidas. Todos são responsáveis por uma pequena parte da destruição.

Assim, o homem assume isto: destruição.
Esta não é mais uma consequência. Quando já tudo foi construído, resta construir a destruição.
Um objecto de destruição.
Tudo o que fora construído é destruído por esse objecto.

A lógica impõe a questão:
Qual é a função da destruição, quando já nada resta?

Para que a vida torne a ter sentido, os homens tornam a construir.
Fazem-no sobre a única coisa que resta, o objecto que tudo destruiu.
Mas tudo o que é construído parece custar uma parte do objecto. Porque tudo o que é desenvolvido contém uma pequena parte de destruição.
Assim, o objecto padece do seu próprio princípio.

A lógica tornará a impor a mesma questão.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

25. Corto Maltese e a sorte


Uma ferida é uma marca. As marcas são singularidades. A singularidade é a rota do destino.
Corto tinha uma mão incompleta. Não lhe faltavam dedos, porque o lado funcional nem sempre serve para completar. Faltavam-lhe linhas. A mãe era cigana, as linhas eram os seus olhos. Mas na palma dele faltava-lhe a linha da sorte.

Corto agarrou numa faca. Cravou a lâmina na pele e sangrou uma linha.
O destino é uma ferida. Com ele, Corto traçou a sua própria sorte.



...wiki...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

24. Jonathan Franzen e o seu Walden


Consequências da liberdade: O mundo tem demasiadas pessoas.

Para Jonathan, o Walden de Thoreau falava sobre liberdade.
Mas parecia-lhe paradoxal, um lugar tão ermo como esse lago poder estar na génese do excesso. Jonathan quis perceber a essência desta liberdade. É um homem contemporâneo, quis perceber a transformação do seu mundo.
Então procurou desenhar o princípio e desenhou um novo Walden. Mas como não sobra espaço no mundo, teve de o fazer junto a um condomínio de luxo. Nessas casas novas e modernas, as mulheres (porque este é o seu século) abriam as portas para os seus gatos pularem na natureza. Dessa natureza, faziam parte os pássaros.
Os gatos povoaram o lago.
Os pássaros desapareceram.
A liberdade doméstica sobrepusera-se ao lado selvagem.
Repito, Jonathan é um contemporâneo.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

23. John Cage e o silêncio no som


John experimentou compor o silêncio.
Apareceu no palco e toda a imensa plateia bateu palmas. Depois fez-se silêncio.
Abriu a pauta e ficou imóvel.
Silêncio.
Alguém tossiu.
A voz de um homem tossiu e um telemóvel tocou.
A voz rouca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou e uns dedos bateram no braço de uma cadeira.
A voz rouca e seca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave, uns dedos bateram como um piano o braço de uma cadeira e uma mão coçava a sua cabeça.
A negra voz rouca e seca de um homem tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave uma variação, uns dedos bateram como um piano as teclas do braço de uma cadeira, uma mão coçava a pele da sua cabeça e uma mulher roía as unhas.
A negra voz rouca e seca de um homem tremido tossiu, um telemóvel ligeiro tocou suave uma variação em crescendo, uns dedos bateram como um piano as teclas perras do braço de uma cadeira, uma mão coçava a pele que se desfazia na sua cabeça, uma mulher roía a parte branca das unhas e um tronco roçava-se no tecido da cadeira.
John executou, perante os holofotes, um movimento de sombra negra, o seu toque na pauta foi rouco e seco, tremente, levantou ligeira a folha com a variação, os seus dedos cresciam, o piano mantinha-se imóvel, a impressão digital era pele que se desfazia, o papel roía-lhe a mão e não demorou, até a página branca roçar o seu fim.
Fechada a pauta, John levantou-se e todos bateram palmas.
O silêncio tecera o seu som.