sexta-feira, 11 de novembro de 2011

22. John Cage e o som do silêncio


Encaminharam John pela universidade. O engenheiro que o guiava não poupara elogios. A câmara anecóica de Harvard será, disse-lhe o engenheiro, o lugar mais silencioso onde alguma vez estaria. Entraram os dois. John examinou primeiro com os olhos a estranha textura das paredes.
Surgiu uma voz. Chamavam pelo engenheiro, o homem pediu desculpa, teria de sair por instantes.
John ficou sozinho na câmara. Mas eis que, naquela sala sem som, John ouviu algo. Dois sons que nunca havia escutado mas que, mesmo assim, eram sons.
O engenheiro entrou de novo. John contou-lhe, disse-lhe que, naquela sala onde deveria imperar o silêncio, ele ouvira algo. Dois sons: um alto e um baixo.
Então o outro disse-lhe que o alto era o seu sistema nervoso a trabalhar, o baixo era o seu sangue a circular.
Então John aprendeu que o silêncio teria sempre um som.



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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

21. Apocalypse Now


Um rio é um espaço entre a terra. Mas, para algo que é uma fenda na continuidade, apresenta uma lógica demasiado simples. O rio corre só numa direcção.
Um barco desafiou a lógica do rio. Desafiou a sua direcção: Subiu o rio.

O barco começou no fim do rio. Ali, a corrente transportava corpos pelas águas encarnadas. Pedaços de homens, feridas húmidas a boiar.
O fim é sempre o homem.

O barco continuou a subir o rio. Então encontrou armas, no fundo difuso da água. Formas de matar. O lado mecânico da destruição. O homem constrói para destruir.
Antes do fim do homem há sempre a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, nas suas margens, encontrou garrafas de álcool e restos de cigarros. Aquilo que existe para lá da mera sobrevivência: Os vícios, o rasto civilizado do homem.
O vício é a razão que antecede a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, por todo o lado, encontrou a mutilação dos animais. Restos de fome. Ossos de vaca, de cabra, de galinha, de cão, de rato. A fome é a memória do que outrora foi visível. A sua presença está em tudo o que sobra.
A fome é a guerra animal do homem sem vício.

E o barco subiu até ao início do rio. E lá havia tão pouco que até a água escasseava. O rio perdia-se. Ia desaparecendo.

Então os homens do barco tiveram sede. E mataram-se para beber. Depois tiveram fome. E mataram-se para comer. Quiseram vícios e deram-se ao luxo de matar para os ter. E para não morrer, para sobreviverem ao massacre do barco, mataram-se pelas armas uns dos outros.
No fim do rio há sempre corpos a boiar.



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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

20. Aldo Van Eyck e Herman Haan no país dos Dogon


Van Eyck e Haan precisaram de saber o mundo para lá da Europa.

Van Eyck queria visitar os Dogon porque assim poderia aprender com eles.
Viajou para longe e chegou à terra dos Dogon, onde escolheu uma casa fora da aldeia. Tinha cama. Tinha água. Um alpendre onde jantava nas noites quentes.
Quando Van Eyck visitava a tribo, era um estrangeiro que visitava a tribo.
Quando a sua viagem chegou ao fim, Van Eyck descobriu que aprendera muito sobre os Dogon.

Haan aprendeu muito sobre si e descobriu que a sua viagem nunca teria fim.
Enquanto Haan vivia com a tribo, era um estranho que vivia com a tribo. Não tinha cama. Não tinha água. Nem um alpendre. Só as noites quentes. Escolhera ficar dentro da aldeia porque as viagens interiores são longínquas. Só assim atingiu o seu âmago.
Haan pôde aprender-se com os Dogon. Mas quisera mesmo visitá-los?



terça-feira, 8 de novembro de 2011

19. Dostoiévski e o Crime e Castigo


A vida são dois passos que se repetem e fazem o homem andar. É o passo direito e o esquerdo. O direito e o esquerdo.
Li um livro que falava sobre andar. Dava nomes aos passos, o esquerdo era o crime, o direito, o castigo.
A grande mensagem no seu final?
Simples: Anda menos.
Senão, um dia, deixas de distinguir o passo esquerdo do direito, e sem querer, dás início a uma história.