quinta-feira, 10 de novembro de 2011

21. Apocalypse Now


Um rio é um espaço entre a terra. Mas, para algo que é uma fenda na continuidade, apresenta uma lógica demasiado simples. O rio corre só numa direcção.
Um barco desafiou a lógica do rio. Desafiou a sua direcção: Subiu o rio.

O barco começou no fim do rio. Ali, a corrente transportava corpos pelas águas encarnadas. Pedaços de homens, feridas húmidas a boiar.
O fim é sempre o homem.

O barco continuou a subir o rio. Então encontrou armas, no fundo difuso da água. Formas de matar. O lado mecânico da destruição. O homem constrói para destruir.
Antes do fim do homem há sempre a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, nas suas margens, encontrou garrafas de álcool e restos de cigarros. Aquilo que existe para lá da mera sobrevivência: Os vícios, o rasto civilizado do homem.
O vício é a razão que antecede a arma.

O barco continuou a subir o rio. Então, por todo o lado, encontrou a mutilação dos animais. Restos de fome. Ossos de vaca, de cabra, de galinha, de cão, de rato. A fome é a memória do que outrora foi visível. A sua presença está em tudo o que sobra.
A fome é a guerra animal do homem sem vício.

E o barco subiu até ao início do rio. E lá havia tão pouco que até a água escasseava. O rio perdia-se. Ia desaparecendo.

Então os homens do barco tiveram sede. E mataram-se para beber. Depois tiveram fome. E mataram-se para comer. Quiseram vícios e deram-se ao luxo de matar para os ter. E para não morrer, para sobreviverem ao massacre do barco, mataram-se pelas armas uns dos outros.
No fim do rio há sempre corpos a boiar.



...wiki...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

20. Aldo Van Eyck e Herman Haan no país dos Dogon


Van Eyck e Haan precisaram de saber o mundo para lá da Europa.

Van Eyck queria visitar os Dogon porque assim poderia aprender com eles.
Viajou para longe e chegou à terra dos Dogon, onde escolheu uma casa fora da aldeia. Tinha cama. Tinha água. Um alpendre onde jantava nas noites quentes.
Quando Van Eyck visitava a tribo, era um estrangeiro que visitava a tribo.
Quando a sua viagem chegou ao fim, Van Eyck descobriu que aprendera muito sobre os Dogon.

Haan aprendeu muito sobre si e descobriu que a sua viagem nunca teria fim.
Enquanto Haan vivia com a tribo, era um estranho que vivia com a tribo. Não tinha cama. Não tinha água. Nem um alpendre. Só as noites quentes. Escolhera ficar dentro da aldeia porque as viagens interiores são longínquas. Só assim atingiu o seu âmago.
Haan pôde aprender-se com os Dogon. Mas quisera mesmo visitá-los?



terça-feira, 8 de novembro de 2011

19. Dostoiévski e o Crime e Castigo


A vida são dois passos que se repetem e fazem o homem andar. É o passo direito e o esquerdo. O direito e o esquerdo.
Li um livro que falava sobre andar. Dava nomes aos passos, o esquerdo era o crime, o direito, o castigo.
A grande mensagem no seu final?
Simples: Anda menos.
Senão, um dia, deixas de distinguir o passo esquerdo do direito, e sem querer, dás início a uma história.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

18. O Fio da Navalha e os livros doentes

Há livros que sempre quis exibir na minha estante. Livros de lombadas simples, onde só interessam as letras que formam o seu nome, mas que escondem os retalhos da minha própria vaidade.

VEJAM.
OBSERVEM.
ADMIREM.
Tudo isto que já li.

Mas há livros que escapam a esta condição vã, porque há livros que não foram feitos para o pó das estantes. Há livros como o meu Fio da Navalha. Perdi-o, e assim vejo as suas páginas amarelas e estragadas serem folheadas por gente de todo o lado, vejo-o longe, noutro país, quem sabe até na Índia, caído no chão, tocado pelas mãos de um leproso, tocado por gestos iguais. O toque é o primeiro gesto da união. Naquelas páginas dobradas, estragadas, marcadas por essa união, reza-se a sífilis do leitor. A doença é uma diferença que se abate sobre o corpo. Porque todos sabem que a diferença é o motor da saudade, agora as personagens do livro, padecem dessa estranha condição.

Eu deixo o espaço vazio na estante. O espaço reservado a este livro doente. Mas se um dia o recuperar, se um dia ele preencher o espaço que sobra, talvez a diferença se abata sobre mim. Então terei saudades do vazio.



...wiki...